Travessia Pico dos Marins - Pico do Itaguaré
A meio caminho entre o Ribeirão Passa Quatro e o cume do Pico dos Marins, olhando para a direção leste vislumbram-se as torres do Pico do Itaguaré (2.308 m), o Nariz do Gigante. À medida que ganhamos altitude, observamos a crista da mantiqueira avançando do Pico do Marinsinho, passando pela Pedra Redonda e se deparando com o imponente Itaguaré.
Este é o cenário de uma das mais famosas travessias de montanha do Brasil. Realizá-la é o desejo de boa parte dos montanhistas que se aventuram no Pico dos Marins.
Três dias é o tempo necessário para curtir cada centímetro de seu percurso; a vida inteira é o tempo para recordá-la.
Os motivos que a tornam inesquecível? Uma combinação equilibrada de extrema beleza, dificuldade para percorrê-la proporcionada pela variada e intensa vegetação e pelos grandes desníveis entre os seus extremos, além de atrações como a Pedra Redonda, os túneis de pedra e os próprios picos que dão nome à travessia.
Tecnicamente é possível realizar esta travessia em dois e até mesmo em apenas um dia. Mas, para quem pretende realizá-la pela primeira vez, vale à pena fazê-la em três dias e curtir, como foi dito acima, cada centímetro dela.
1º Dia da Travessia
Primeiramente, é importante observar que os pontos de partida e de chegada da travessia são diferentes e distantes cerca de 15 km, portanto deve-se providenciar um resgate após a realização da travessia, a menos que se queira fazer o retorno a pé pela estrada.
Inicia-se a caminhada pela trilha clássica de subida para o Pico dos Marins. A travessia propriamente dita tem início nas proximidades do Ribeirão Passa Quatro, que está à cerca de três horas do Morro do Careca. Nessa região há bons locais para acampar e descansar para o 2º dia da travessia. Um outro possível local para acampamento é nas proximidades do topo do Pico do Marinsinho, porém trata-se de uma área diminuta capaz de comportar no máximo duas pequenas barracas.
2º Dia da Travessia
O objetivo para o 2º dia é atingir a Pedra Redonda. Do Ribeirão Passa Quatro até ela leva-se em torno de cinco horas. As observações para esta jornada são:
- Não há água durante todo esse percurso;
- A vegetação é agressiva. Vista calça, camisa de manga comprida e luvas;
- Não há outros locais apropriados para acampar entre o Pico do Marinsinho e a Pedra Redonda.
- Em alguns trechos, especialmente na subida do Marinsinho, a trilha desaparece nas rochas e/ou sob a vegetação.
- Próximo ao cume do Marinsinho a trilha se bifurca conduzindo para um pico à sua esquerda. Ignore esta bifurcação e siga à direita conforme indicado aqui.
Esta fase da travessia é marcada pela descida do Pico do Marinsinho por meio de uma corda fixa lá existente, pelas muitas sucessões de subidas e descidas e incontáveis trepa-pedras, pelos bambuzinhos que crescem por boa parte da trilha e estão sempre prontos para arranhar sem piedade braços e pernas daqueles que ousam cruzar o seu caminho e, finalmente, pela surpresa ao concluir este 2º dia e perceber que a Pedra Redonda não é redonda! (Puxa, estraguei a surpresa...)
Outro ponto forte desse trecho da travessia é a grande beleza e imponência dos paredões da face sul do Pico dos Marins revelados já durante a subida do Pico do Marinsinho.
Após alcançar a Pedra Redonda e seguindo no sentido da travessia, ao descer do morro onde ela se encontra depara-se com uma bifurcação da trilha. Seguindo à esquerda, em poucos metros chega-se à uma pequena área de acampamento com capacidade para, no máximo, três barracas. É um local cercado por capim elefante e pequenas árvores que proporcionam proteção contra o vento. Na bifurcação, seguindo a trilha pelos bambuzinhos, em poucos metros sobe-se um morro do qual pode-se vislumbrar a Pedra Redonda entre os picos Marins e Marinsinho.
Embora haja outra área de acampamento à cerca de uma hora e meia da Pedra Redonda, é recomendável passar a noite aqui pois é um excelente local para apreciar o fim de tarde com os últimos raios de sol sobre o Pico do Itaguaré e observar as cidades do Vale do Paraíba com suas luzes acessas durante a noite.
3º Dia da Travessia
O objetivo para o 3º dia é atingir o cume do Itaguaré. Da Pedra Redonda até o Itaguaré leva-se em torno de seis horas. As observações para esta jornada são:
- A chance de encontrar água durante esse percurso é remota;
- A vegetação é agressiva e variada;
- Há três áreas de acampamento entre a Pedra Redonda e o Pico do Itaguaré:
- Acampamento 1: aproximadamante 01h:30min após a Pedra Redonda;
- Acampamento 2: aproximadamante 02h:10min após a Pedra Redonda;
- Acampamento 3: aproximadamante 03h:30min após a Pedra Redonda.
- Muita atenção ao andar em trechos onde a vegetação cobre a trilha. Há risco de tropeços em buracos, raízes e pedras.
- Há um local conhecido por Capim Alto onde a trilha se bifurca em três ou quatro outras que não levam a lugar algum. O nome desse local é devido ao fato de que a vegetação é bem crescida, a ponto de tirar a visão dos arredores e desorientar os aventureiros. Verificando que a trilha se fecha, retorne ao ponto onde ela se bifurca e siga por outra alternativa até que se encontre o caminho correto.
Este é o dia mais cansativo e longo de toda a travessia. Até o Itaguaré serão em torno de seis horas de caminhada vencendo grandes desníveis, muita umidade, capinzal, bambuzinhos, matas com árvores de média altura e túneis de pedra.
Partindo da Pedra Redonda a trilha se desenvolve em declive suave pela crista da serra, o Itaguaré sempre à vista se aproxima lentamente e enche de motivação os aventureiros neste último dia de travessia.
A parte final desse trecho é bastante desgastante fisicamente. Caminha-se por dentro de mata de árvores de média altura (4 a 6 metros) onde a umidade e o calor são extenuantes, grandes desníveis serão vencidos à custa de muito esforço de braços e pernas e algumas vezes a mochila terá de ser retirada das costas para vencer estes obstáculos e também para passar pelos túneis de pedra. A natureza parece querer fazer um último teste para que os aventureiros provem que são merecedores de pôr os pés no Pico do Itaguaré.
Chegando na base do Itaguaré a vista que se tem de seu cume é uma surpresa em razão do contraste entre a forma de sua face oeste habitualmente vista durante a travessia e a que se revela pela sua face norte. Dessa perspectiva vê-se um grande maciço rochoso e de forma arredondada. Atingir suas partes superiores não requer grande esforço e não leva mais que quinze minutos.
O cume do Itaguaré é estreito (não há condições para acampar nele) e formado por enormes pedras sobrepostas. Suas torres, vistas do cume, pontiagudas e formadas por rochas de faces planas, dão a impressão de terem se erguido das profundezas da Terra rasgando sua superfície em direção ao céu.
A leste vê-se a Serra Fina e a magnífica Pedra da Mina. Ao sul, bem próxima ao Itaguaré, repousa a cidade de Cruzeiro/SP; a oeste, temos o trecho final da travessia com o Pico dos Marins e o Pico do Marinsinho emoldurando a Serra da Mantiqueira. Ao norte, as maravilhosas montanhas do Sul de Minas Gerais completam este cenário de alucinante beleza.
A descida para o resgate
A descida do Itaguaré até o local de resgate demora aproximadamente uma hora e meia e inicia-se pela travessia de um estreito riacho a nordeste de sua base. Após cruzá-lo é só seguir por um caminho entre dois morros rochosos até uma área de acampamento onde há uma trilha que sobe pelo morro rochoso à sua esquerda. Em cima deste morro a trilha se bifurca à esquerda. Não entre nessa bifurcação, pois ela o levará a um abismo. Seguindo pelo caminho correto, em poucos minutos terá início uma forte descida até uma mata fechada de árvores de média altura. A partir daí serão cerca de uma hora por dentro da mata numa verdadeira escadaria de terra, raízes e galhos até um riacho que será transposto três vezes antes do local de resgate à beira da estrada de Marmelópolis. A área de resgate está a poucos metros do terceiro ponto de transposição do riacho.

